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The Apple Branch -Sobre os Druidas  

Um pedaço interessante, ainda extraído do capítulo 1 do The Apple Branch, A Lenda dos Celtas



Nos é dito, por Julio Caesar e outros, que o banimento da escrita era iniciado e reforçado pela casta de sacerdotes dos celtas, os druidas. Até mesmo os reis tribais derivavam sua autoridade dos druidas, cuja própria autoridade era, em termos práticos, maior. Por causa da sua comunicação com o Outro Mundo, a realidade suprema, os druidas podiam ser confiados a proferir julgamentos fundamentais em eventos, e a revelar caminhos que deveriam ser seguidos. Talvez tenha sido de sua direção que a tradição celta tenha adquirido sua estrutura distinta: um lado “exterior” que inova ousadamente e livremente, e um lado “interno” que se mantém teimosamente imutável, certo de seu valor eterno. Através da história das noções básicas dos Celtas Livres em relação a sociedade, a terra e o Outro Mundo suportaram pequenas transformações. Sempre nós vemos a estrutura tripla da tribo que George Dumézil considerava típica dos Indo-europeus: uma casta sacerdotal (e um rei sagrado) focando autoridade através de suas associações com o Outro Mundo: uma sociedade guerreira, defendendo a tribo; e uma classe de fazendeiros, para alimentar a tribo.

A casta sacerdotal – os druidas e bardos – tinham uma grande variedade de funções. Originalmente xamãs que recebiam mensagens do Outro Mundo num estado de transe, eles encontraram, em sua confiança na memória, um aliado natural na arte da poesia. O que saia das visões em uma torrente de palavras poderia ser relembrado mais facilmente quando modelado por métrica e aliteração. Então a arte de fazer versos ficou intimamente associada com a prática mágica e o poder do Outro Mundo, e se manteve assim através da história celta. Talvez, em suas origens, membros da aristocracia guerreira que eram fisicamente ou psicologicamente não aptos para o combate, os druidas e bardos tomavam sobre eles próprios tantas funções cruciais que eles se tornaram central para a coesão da sociedade, e excederam longe os guerreiros em autoridade. Suas pessoas eram invioláveis. Seus treinamentos duravam anos. Eles sozinhos eram os peritos máximos em questão de genealogia, e da lei: eram deles a ultima palavra em determinar disputas. Como scryers ou adivinhos do Outro Mundo eles sabiam quais sacrifícios eram necessários para manter o balanço do mundo, e algumas vezes serviam de mensageiros humanos para os Deuses. Tendo um intelecto curioso e ativo, eles observavam o mundo natural ao seu redor, estudavam as propriedades das ervas, e praticavam cura, tanto xamanica quanto medicinal. E, não ultimo, eles eram responsáveis pelo ensino dos jovens da tribo, comunicando a eles a natureza do universo e as regras pelas quais eles deveriam ter que viver. Desde que eles se recusavam a escrever qualquer ensinamento, nós somente podemos supor a maioria disso, mas o amplo resumo é claro.

A Terra, eles ensinavam, era uma entidade viva, consciente e receptiva as atividades humanas, mas um tanto inumana em sua natureza e necessidades. Era a máxima realidade antes da qual a consciência puramente humana da tribo tinha que reverenciar. Personalizada, ela se manifestava como uma Deusa de quem os favores tinham que ser ganhos. Seu consorte, o Deus, incorporava todos os interesses e ideais da tribo em todos os níveis sociais, e servia como mediador entre as esferas do humano e do inumano. Através da divisão de sua identidade com um único humano – o Rei Sagrado – ele fazia possível um casamento sacramental e cosmicamente obrigatório entre um membro tribal e a Deusa. Como família do Rei, toda a tribo se transformava em família da Terra, poderiam se acomodar em seu abraço, e tirar seu sustento do seu corpo, mas somente desde que eles respeitassem sua pessoa e não a violentasse. Mesmo o casamento do Rei permanecia válido somente se ele continuasse a ser uma justa representação do Deus, sem manchas tanto em seu corpo quanto em seu caráter. Ele tinha que encarnar as virtudes especificas das três funções: piedade, coragem e generosidade.

Este balanço todo importante entre a Tribo e a Terra era só um exemplo da vasta interação entre o Deus e a Deusa, que abraçava todo o universo. Era um casamento de tempo e espaço, mutável e imutável, ativo e passivo, a restrita realidade do nosso mundo e o potencial inesgotável do Outro Mundo. Cada faceta da existência eram de algum meio uma reação ao balanço mutável entre estes dois princípios polares. Mas, para a balança mudar, prevenir os dois poderes iguais de alcançar um empate, assim colocando um final ao ciclo de acontecimentos, um terceiro elemento tinha que ser introduzido, uma projeção de tanto o Deus quanto da Deusa que constantemente perturbaria a balança em favor de um ou de outro e a colocariam em movimento perpétuo. O mais completo modelo do processo universal era um triádico, e os celtas incorporavam o padrão triplo em várias de suas criações artísticas, tanto visuais quanto verbais. As três funções da sociedade eram mais uma manifestação do três-em-um, num nível de comunidade humana.

Na polaridade entre nosso mundo e o Outro Mundo, o desordenado terceiro elemento consistia na fusão condicional dos dois, tanto em pontos específicos em tempo ou espaço ou em lugares específicos onde as fronteiras entre os mundos eram finas. O tempo era definido pelo ciclo anual, dividido em quatro quartos, cada quarto inaugurado por um período no qual a influencia do Outro Mundo era derramada no reino humano. Os druidas novamente tinham um papel crucial na definição dos melhores rituais apropriados para a troca de energia entre os mundos nos dias quartenarios, para o melhor bem estar de todas as três classes na tribo.

Apesar deles se submeterem aos druidas em questão de suprema autoridade, a aristocracia guerreira era o núcleo da vida da tribo, seus agentes mais visíveis, o foco principal de sua admiração, e os compositores de tendências e modas em um nível mais superficial e mundano. Eles reivindicavam seus direitos de grupo familiar para o território que encarnava o espírito de sua Deusa-Terra, e mantinham os intrusos fora mostrando coragem e determinação. Mas não era deles uma organização militar firmemente disciplinada, visando ganhos em termos de ambição através de uma estratégia planejada. Eles raramente procuravam expansão territorial através de conquistas, exceto em períodos incomuns de necessidade econômica. Eles não tinham o conceito real de guerra como é agora entendido. Os guerreiros procuravam altas carreiras individuais, e ganhavam posição social atraindo atenção a eles mesmos em desafios, expedições de pequenas escalas no território inimigo, o que causaria represálias numa escala menor. O gado constituía a riqueza primária da tribo, então ataques ao gado eram uma forma especialmente popular de provocação mútua. Durante o ataque cada guerreiro tentaria atrair um inimigo com renome em particular em combate, e daria uma mostra de bravura e audácia – e até mesmo, em boas circunstancias, levaria a cabeça do inimigo como troféu. A competição era feroz para o primeiro colocado na hierarquia dos guerreiros: o mais respeitado e mais experiente guerreiro poderia clamar a porção dos campeões nas festas, e ser mostrado outros sinais de deferência. Os guerreiros também competiam entre si na qualidade e ornamentação de suas roupas e armas. Todos tinham a ambição de serem lembrados em recitações épicas dos bardos.

(texto tb postado no LJ-com [info]gaeassail, traduzido por mim. Por favor, não esqueça dos créditos! Go raibh maith agat :) )

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